Amizade e Reforço Positivo

Costuma-se dizer que quando o silencio é confortável entre duas pessoas, elas se dão muito bem. Ou seja, muitas vezes só a presença de um amigo é suficiente para melhorar nosso humor, sem necessariamente ter que haver algo para ser falado. Afirmar isso é dizer, em linguagem técnica, que a presença de uma pessoa adquire valor reforçador, independentemente do tipo de estimulação que ela provê (reforçadora ou aversiva). Explico. Uma amizade (do tipo “silencio é confortável”) é um relacionamento que na sua historia foi marcado por muitas situações e interações prazerosas. Por muitas vezes um ofereceu ao outro uma gama de estímulos reforçadores, como por exemplo, elogios, acolhimento, abraços, gargalhadas sinceras, palavras de conforto, palavras de incentivo, ouvir sem julgamento, etc. E essas duas pessoas, marcadas por essa história passam a significar uma para outra, a sensação de bem estar em si. Quando um amigo está próximo (e apenas está próximo) nos sentimos bem. Pois, ele reflete, embora nem sempre (e isso ajudou no processo), toda uma historia de interações prazerosas. O amigo se tornou um Reforçador em si apesar dos seus comportamentos. São os conceitos de Condicionamento Operante e Respondente. Nós somos seres sociais e nascemos para viver em bando. Uma pesquisa rápida no Google pode mostrar muitas pesquisas relacionando isolamento social e depressão. Em outras palavras, pessoas que não tem amigos adoecem.
Esse modelo é valido para analisar todos os tipos de relacionamento (com família, parceiro amoroso, etc.). Se o silencio é confortável na presença de alguém, suspeite de que vocês já passaram por bons bocados juntos. Uma pergunta que as crianças adoram responder: “Quem é o seu melhor amigo?”
Desejo-lhes muitos melhores amigos! 

Elogio e Automonitoramento


Provavelmente você já ouviu algo parecido com isso: "Foi só elogiar que em seguida começou a fazer besteira". Pois bem, farei aqui uma análise comportamental desse "fenomeno". Os seres humanos possuem a capacidade de aprender a monitorar o próprio comportamento, ou seja, observar o seu desempenho em uma situação e o seu conseqüente impacto no ambiente ou nas pessoas. Chamamos isso de comportamento de Automonitoramento. É como se observássemos a nós mesmos "de fora". O problema é que algumas pessoas fazem isso com muita freqüência e intensidade. Em geral pessoas que são socialmente ansiosas, tendem a monitorar de forma exagerada seu próprio comportamento para garantir que não irão cometer erros, deslizes. Mas não podemos esquecer que automonitorar-se também é um comportamento. E quanto maior a intensidade dessa resposta, menores ou menos eficazes serão a emissão de outras. No exemplo do elogio, imaginemos uma partida de golf. Antes que você possa dar sua tacada, seu oponente se aproxima e lhe diz: "Admiro muito a forma com que você faz suas jogadas". É possível que sua tacada desta vez não passe nem perto do que você esperava. Isso acontece porque a frase do oponente, maldosa, diga-se de passagem, provocou um aumento excessivo no automonitoramento, o que por sua vez afetou comportamentos motores complexos necessários para a realização da tacada. Trocando em miúdos, você prestou mais atenção em você mesmo do que na jogada em si. Podemos classificar essa dificuldade como excessos comportamentais de auto-referência. Monitorar o próprio comportamento é importante, mas sem exageros. Fica a dica!

Sobre de Término de Relacionamento e Extinção


Analistas do comportamento trabalham com um conceito chamado Extinção. Nos livros didáticos é comum encontrarmos exemplos de laboratório em que ratos, privados durante certo tempo de água, aprendem a pressionar uma barra a fim de receberem uma gota d'água. Mas o que acontece quando o experimentador suspende a água do ratinho, mesmo que ele pressione a barra? Pois bem, ele fica desesperado, tenta várias alternativas, até que desista de pressioná-la. Mas essa história de ratos, gaiola e água tem feito muitos alunos de psicologia desistir de uma de ciência vastíssima e muito coerente, a análise do comportamento. Vamos falar de pessoas e onde essa história de extinção se encaixa em nossas vidas. De forma simplificada, um reforçador (positivo) é algo que nos dá prazer. Quando o que fazemos deixa de ter como conseqüência algo que nos era reforçador, dizemos que o comportamento entra em extinção, ou seja, dentro de algum tempo, deixaremos de fazer certas coisas porque simplesmente não mais obtemos alguma forma de gratificação com aquilo. Um exemplo de extinção é a morte de alguém próximo, querido. Conviver com a pessoa era reforçador, porém, não temos mais acesso a ela. Terminar um relacionamento amoroso também é forma de extinção e como tal sofremos os efeitos dela. Uma característica do processo de extinção é que no início, após a suspensão do reforço há um aumento significativo na taxa de respostas para obtê-lo novamente (o ratinho "desesperado"). Trocando em miúdos, no início tentamos de várias formas obter novamente aquele reforço. São aquelas ligações de madrugada, implorando para o outro uma segunda chance e prometendo agir diferente.  Se o reforço não vem, experimentamos sentimentos como: depressão, desânimo, tristeza, raiva, etc. Em casos mais extremos ouvimos notícias de pessoas que cometem crimes ou tentam suicídio após o término de um relacionamento. A sensação é que a dor irá durar para sempre, mas a notícia boa é que esses sentimentos ruins associados à extinção acontecem durante certo período de tempo e depois desaparecem. É muito comum pessoas tentarem substituir um reforçador por outro imediatamente. No caso, encontrar outra pessoa. O problema aqui é que não houve tempo suficiente para que os sentimentos de depressão, desanimo, tristeza, etc., passassem. E acabam por se engajar em outro relacionamento para não sentir dor. E aí o ciclo se repete quando o novo relacionamento terminar. Substituição pode trazer alívio imediato, mas mantém um problema no plano de fundo. Dai a importância do que popularmente chamamos de 'perder o medo de ficar sozinho(a)'. Entrar em um relacionamento somente por opção e não para fugir de qualquer sensação ruim. Relacionamentos amorosos são apenas uma parcela do que a vida pode nos oferecer de bom. Fica a dica! 

Ansiedade e Catastrofização


Como o próprio nome sugere, catastrofizar envolve superestimar as conseqüências negativas de determinado comportamento, ou situação, tornando-os verdadeiras catástrofes. “Não farei a apresentação, pois tenho certeza que terei um ataque cardíaco ou serei reprovado pelo público”. Muito freqüente em pessoas que apresentam fortes respostas de ansiedade, catastrofizar traz um grau sofrimento significativo para o individuo. A Catastrofização envolve prever um evento como extremamente aversivo, o que por sua vez aumenta o nível de ansiedade. Com níveis de ansiedade elevados, aumenta as chances de a pessoa cometer erros, o que pode alimentar mais ainda a idéia de uma catástrofe iminente. Nós, Terapeutas Comportamentais, além da condução do processo terapêutico norteado por uma boa Análise Funcional do caso, utilizamos alguns recursos para ajudar essas pessoas a baixarem o nível de ansiedade e extinguir essas respostas do seu repertório. É importante ressaltar aqui, que a catastrofização envolve algum histórico de aprendizagem, ou seja, em determinado momento da vida a pessoa “aprendeu” a catastrofizar.  Daí a importância de conhecer não apenas o que mantém esse comportamento ocorrendo, mas quando se instalou. Vejamos algumas formas de lidar com o problema: 

1 – Análise Lógica: Analisar as experiências reais anteriores em relação ao medo atual, buscando diminuir a crença na inevitabilidade da situação trágica, ou superestimação das conseqüências negativas. Podem ser úteis, por exemplo, perguntas como: “Quantas vezes isso realmente aconteceu no passado?”, “Quantas vezes meu comportamento provocou essa conseqüência?” 

2 – Coping Cards: Anotar em ‘cartões de desempenho’, as situações na qual o indivíduo teve bom desempenho no mesmo contexto temido. Os cartões podem ser guardados na carteira ou bolsa e usados como auxílio no momento que os pensamentos catastróficos surgirem. 

3 – Projeção no tempo: Analisar a situação imaginada como catastrófica, semanas, meses ou anos após o seu  acontecimento imaginado. Estimular a racionalização da situação temida quando já se passou algum tempo, no exemplo do medo de falar em público, em geral evoca pensamentos como: “Acho que tudo voltaria ao normal”. 

4 - Descatastrofizar imagens: Analisar a imagem temida nos seus detalhes e buscar argumentos lógicos que podem tornar a situação menos catastrófica. Neste caso o terapeuta auxilia o cliente a compreender as distorções que faz da realidade e a construir uma imagem menos trágica da situação. 

É importante destacar aqui que as técnicas para controle de ansiedade nesse caso, podem trazer alívio da tensão de forma mais imediata, o que não quer dizer a classe de comportamentos ‘catastrofizar’ esteja extinto. Em geral, através da Análise Funcional de cada caso, descobre-se a função desse tipo de comportamento, e ela pode estar relacionada com contingências e padrões de comportamentos aparentemente sem conexão entre si. Então, se você apresenta nível de ansiedade elevada e catastrofizações freqüentes, o ideal é buscar um bom terapeuta, pois catastrofizar pode ser apenas um ‘sintoma’ de algo mais importante a ser trabalhado (e em geral o é). Politicamente incorreto, mas a título de “didática” e informação, cito aqui uma auto-instrução, por assim dizer, que um psiquiatra especializado em transtornos de ansiedade (cujo nome não me recordo), citou em um programa de televisão e utiliza com seus pacientes: “Quando a ansiedade subir e você se desesperar, olhe para a situação e use a palavrinha mágica... Fod*-se!”

Sobre Ciúmes e Psicoterapia


Freqüentemente, sentir ciúmes é visto como algo desejável em um relacionamento. Trata-se, popularmente, de uma forma de expressão de afeto, cuidado, amor. Resolvi abordar o tema, pois minha experiência clínica e de vida apontam uma curiosidade relacionada ao tema. Tenho certeza que o que direi não será novidade para os terapeutas: Pessoas com relacionamento estável, ao longo do processo terapêutico, bem conduzido, tendem a se demonstrar menos ciumentas e esse fato, conseqüentemente, promove alguma crise na relação (quando apenas um dos cônjuges está em terapia). Psicanalistas diriam que o ciúme está ligado ao temor da perda de algo que é fonte de satisfação, que por sua vez, remete à relação ‘mãe – filho’, onde a mãe é uma fonte de satisfação sempre disponível. Enquanto Analista do Comportamento, vou abordar o tema sob a ótica do autoconhecimento e da auto-estima:

1. O processo terapêutico promove autoconhecimento. A pessoa se torna mais consciente do seu papel na manutenção das queixas apresentadas e aprende novas formas de interagir com seu ambiente, bem como passa a ter mais consciência das suas qualidades pessoais. Aprende a fazer uma observação e análise adequadas do próprio comportamento.

2. Justamente pelo que acima foi descrito, a auto-estima se eleva. Há mais confiança em si mesmo, menos ansiedade e menor necessidade de controlar o parceiro no intuito de evitar que ele se relacione com outras pessoas. Isso se deve também ao fato de que, uma pessoa que recuperou a auto-estima, perde o medo de ficar sozinha. E não vê mais o parceiro como única fonte de satisfação na vida. Dessa forma diz-se que ela deixou de ser “ciumenta”. Na realidade houve uma diminuição de controle desnecessário em vários contextos e não apenas no relacionamento.

3. Resultado final: O parceiro encara a mudança positiva do outro como um ataque pessoal. Os primeiros pensamentos que vem a mente são “ele(a) está me traindo”, “ele(a) não gosta mais de mim”, “está aprontando alguma”, etc. É a busca por uma resposta satisfatória para a mudança de comportamento, e com ela, aumenta a pressão para que o outro volta a ser como era. Instala-se a crise, e dependendo do grau de comunicação entre o casal, pode ser muito difícil reverter esse quadro, culminando no término do relacionamento.

Sem entrar na discussão sobre importância do ciúme em uma relação, há sempre um ponto de equilíbrio. Trata-se de uma forma de controle e é preciso atentar para ela, pois vemos e ouvimos com muita freqüência histórias de diversos crimes cometidos por um excesso desse tipo de comportamento. Pessoas com baixa auto-estima tendem a valorizar demonstrações ciumentas, pois se sentem amadas e valorizadas, e isso pode criar um grande problema mais tarde. Se o parceiro não trai, será realmente por conta do alcance das demonstrações de ciúmes, ou por que escolheu estar na relação? Nada como recuperar a auto-estima e manter relacionamentos mais saudáveis, afinal, tudo que é “proibido” é...?

Maternidade e a fuga do preconceito

Já falei, em outra publicação, sobre a pressão que as mulheres sofrem, por parte das próprias mulheres, em “não ficarem pra titia”. Uma contingência cultural que desencadeia ansiedade e sentimento de inadequação nas solteironas. Mas não é apenas no sentido de ‘contrair matrimônio’ que se resume o contexto cultural aversivo que as mulheres vivem atualmente. Falo aqui da pressão social para serem mães. O mecanismo de coerção é o mesmo. O sentimento de culpa é um efeito colateral de um comportamento que se desvia do que está estabelecido enquanto “verdade” em uma sociedade. E é esse sentimento que têm experimentado aquelas mulheres que optam por não ter filhos. Analisando as contingências históricas do culto à maternidade, observa-se uma sociedade buscando uma solução pacífica para a instalação de um modelo paternalista de controle. É instituída a idolatria da função materna, expressa inclusive nas artes como literatura, pintura, música, etc. O desejo de ser mãe, então, passa a fazer parte do que é consensualmente aceito (inclusive pela comunidade científica) como desenvolvimento normal da natureza feminina. Nessa época e não raro nos dias atuais, até mesmo a educação dos filhos foi atribuída exclusivamente às mulheres, sob a alegação de que estas possuem habilidades inatas de relacionamento, o que, por sua vez, exime o homem dessa responsabilidade. Não causa espanto, portanto, ler notícias como esta “Mulheres que optam por não ter filhos são alvo de pressão social”. Novamente vemos uma faceta cultural gerando preconceitos e promovendo desconforto em muitas pessoas.  

Crianças e a guerra contra os legumes

Hoje pela manhã, assistindo ao noticiário vi uma reportagem sobre crianças que fazem birra na hora das refeições, principalmente quando se trata de comer legumes e verduras. A apresentadora do telejornal entrevistou ao vivo, se não me falha a memória, uma pediatra do hospital das clínicas em São Paulo, que trouxe algumas informações bastante úteis de como lidar com essa situação e resolvi fazer uma análise comportamental dessas orientações. No início da sua fala, a pediatra diz que após ter consultado o médico da criança, devem-se seguir algumas mudanças em casa, ou seja, descartada qualquer causa orgânica para a recusa em se alimentar, o jeito é aprender a lidar com a birra. Vejamos as orientações e suas equivalentes dentro da análise do comportamento: 

"Ninguém morre de fome com alimento disponível": Muitas mães entram em desespero quando os filhos se recusam a comer. Principalmente quando ele está há alguns dias agindo dessa forma. O importante neste caso é a mãe aprender a controlar a ansiedade e entender que filogenéticamente a criança está programada para se alimentar com uma béla salada de rúcula se sua sobrevivência depender disso. 


"Não dê importância para as birras e não demonstre que aquilo te preocupa": O comportamento de fazer birras possui claramente dupla função, a de se livrar dos legumes e a de disponibilizar as gulozeimas. Quando o adulto não dá importância para a birra, o comportamento dela, nesse caso tende a entrar em Extinção. Chamar a atenção dos pais ou sensibilizá-los é o objetivo da criança. Portanto, ao demonstrar que estão preocupados com a situação, acabam reforçando o comportamento inadequado. 


"Deixe a comida disponível para a criança": Como já dito anteriormente, chegará um momento em que a criança se alimentará com o que estiver disponível (nesse caso, a alimentação adequada), pois, estamos falando de uma Operação Estabelecedora. A privação de alimento, aumenta o Valor Reforçador deste, e enquanto Reforço Primário, por si só, fortalece o comportamento de ingerir legumes e verduras. 


"Não ofereça yogurtes ou outros alimentos alternativos": Ao oferecer alternativas para que a criança se alimente, os pais Reforçam Positivamente o comportamento de fazer birras, pois, se livrar dos legumes e ganhar gulozeimas, é justamente a função do seu comportamento. 


"Dê o exemplo": A Imitação facilita a instalação do comportamento no repertório da criança, portanto, servir de modelo é fundamental.


"Verbalize enquanto come, que a comida está boa": Na medida em que a Operação Estabelecedora dá acesso à criança a um Reforçador Primário, a narrativa dos pais em voz alta de que o alimento está gostoso (na hora do almoço ou jantar), pode servir de Estímulo Discriminativo para a sensação positiva de saciação que a criança terá após alimentar-se. E dessa forma passar a controlar a resposta de comer vegetais. Pode servir também como uma forma de Reforço  Generalizado (social). Basta observar o impacto que essas verbalizações tem sobre o comportamento da criança, se esse comentário parte de um amiguinho da mesma idade. 

A hora do almoço ou jantar, para muitas famílias se torna um caos por conta das birras para se livrar dos vegetais. Mães costumam entrar em desespero quando seu filho não está bem alimentado. A pediatra orienta que talvez nas duas primeiras semanas a criança apresente forte resistencia a essas novas regras. Então, cabe aos pais aprender a lidar com a ansiedade e suas auto regras nesse sentido (por exemplo, "não estou sendo uma boa mãe/pai", "criança não deve ficar com fome nunca", "meu filho vai ter um 'tréco'", etc). Ensinar os filhos a se alimentarem adequadamente é tão importante quanto vê-los de barriga cheia, e se configura numa pratica necessária e que demonstra amor e responsabilidade.