Ansiedade e Catastrofização


Como o próprio nome sugere, catastrofizar envolve superestimar as conseqüências negativas de determinado comportamento, ou situação, tornando-os verdadeiras catástrofes. “Não farei a apresentação, pois tenho certeza que terei um ataque cardíaco ou serei reprovado pelo público”. Muito freqüente em pessoas que apresentam fortes respostas de ansiedade, catastrofizar traz um grau sofrimento significativo para o individuo. A Catastrofização envolve prever um evento como extremamente aversivo, o que por sua vez aumenta o nível de ansiedade. Com níveis de ansiedade elevados, aumenta as chances de a pessoa cometer erros, o que pode alimentar mais ainda a idéia de uma catástrofe iminente. Nós, Terapeutas Comportamentais, além da condução do processo terapêutico norteado por uma boa Análise Funcional do caso, utilizamos alguns recursos para ajudar essas pessoas a baixarem o nível de ansiedade e extinguir essas respostas do seu repertório. É importante ressaltar aqui, que a catastrofização envolve algum histórico de aprendizagem, ou seja, em determinado momento da vida a pessoa “aprendeu” a catastrofizar.  Daí a importância de conhecer não apenas o que mantém esse comportamento ocorrendo, mas quando se instalou. Vejamos algumas formas de lidar com o problema: 

1 – Análise Lógica: Analisar as experiências reais anteriores em relação ao medo atual, buscando diminuir a crença na inevitabilidade da situação trágica, ou superestimação das conseqüências negativas. Podem ser úteis, por exemplo, perguntas como: “Quantas vezes isso realmente aconteceu no passado?”, “Quantas vezes meu comportamento provocou essa conseqüência?” 

2 – Coping Cards: Anotar em ‘cartões de desempenho’, as situações na qual o indivíduo teve bom desempenho no mesmo contexto temido. Os cartões podem ser guardados na carteira ou bolsa e usados como auxílio no momento que os pensamentos catastróficos surgirem. 

3 – Projeção no tempo: Analisar a situação imaginada como catastrófica, semanas, meses ou anos após o seu  acontecimento imaginado. Estimular a racionalização da situação temida quando já se passou algum tempo, no exemplo do medo de falar em público, em geral evoca pensamentos como: “Acho que tudo voltaria ao normal”. 

4 - Descatastrofizar imagens: Analisar a imagem temida nos seus detalhes e buscar argumentos lógicos que podem tornar a situação menos catastrófica. Neste caso o terapeuta auxilia o cliente a compreender as distorções que faz da realidade e a construir uma imagem menos trágica da situação. 

É importante destacar aqui que as técnicas para controle de ansiedade nesse caso, podem trazer alívio da tensão de forma mais imediata, o que não quer dizer a classe de comportamentos ‘catastrofizar’ esteja extinto. Em geral, através da Análise Funcional de cada caso, descobre-se a função desse tipo de comportamento, e ela pode estar relacionada com contingências e padrões de comportamentos aparentemente sem conexão entre si. Então, se você apresenta nível de ansiedade elevada e catastrofizações freqüentes, o ideal é buscar um bom terapeuta, pois catastrofizar pode ser apenas um ‘sintoma’ de algo mais importante a ser trabalhado (e em geral o é). Politicamente incorreto, mas a título de “didática” e informação, cito aqui uma auto-instrução, por assim dizer, que um psiquiatra especializado em transtornos de ansiedade (cujo nome não me recordo), citou em um programa de televisão e utiliza com seus pacientes: “Quando a ansiedade subir e você se desesperar, olhe para a situação e use a palavrinha mágica... Fod*-se!”

Sobre Ciúmes e Psicoterapia


Freqüentemente, sentir ciúmes é visto como algo desejável em um relacionamento. Trata-se, popularmente, de uma forma de expressão de afeto, cuidado, amor. Resolvi abordar o tema, pois minha experiência clínica e de vida apontam uma curiosidade relacionada ao tema. Tenho certeza que o que direi não será novidade para os terapeutas: Pessoas com relacionamento estável, ao longo do processo terapêutico, bem conduzido, tendem a se demonstrar menos ciumentas e esse fato, conseqüentemente, promove alguma crise na relação (quando apenas um dos cônjuges está em terapia). Psicanalistas diriam que o ciúme está ligado ao temor da perda de algo que é fonte de satisfação, que por sua vez, remete à relação ‘mãe – filho’, onde a mãe é uma fonte de satisfação sempre disponível. Enquanto Analista do Comportamento, vou abordar o tema sob a ótica do autoconhecimento e da auto-estima:

1. O processo terapêutico promove autoconhecimento. A pessoa se torna mais consciente do seu papel na manutenção das queixas apresentadas e aprende novas formas de interagir com seu ambiente, bem como passa a ter mais consciência das suas qualidades pessoais. Aprende a fazer uma observação e análise adequadas do próprio comportamento.

2. Justamente pelo que acima foi descrito, a auto-estima se eleva. Há mais confiança em si mesmo, menos ansiedade e menor necessidade de controlar o parceiro no intuito de evitar que ele se relacione com outras pessoas. Isso se deve também ao fato de que, uma pessoa que recuperou a auto-estima, perde o medo de ficar sozinha. E não vê mais o parceiro como única fonte de satisfação na vida. Dessa forma diz-se que ela deixou de ser “ciumenta”. Na realidade houve uma diminuição de controle desnecessário em vários contextos e não apenas no relacionamento.

3. Resultado final: O parceiro encara a mudança positiva do outro como um ataque pessoal. Os primeiros pensamentos que vem a mente são “ele(a) está me traindo”, “ele(a) não gosta mais de mim”, “está aprontando alguma”, etc. É a busca por uma resposta satisfatória para a mudança de comportamento, e com ela, aumenta a pressão para que o outro volta a ser como era. Instala-se a crise, e dependendo do grau de comunicação entre o casal, pode ser muito difícil reverter esse quadro, culminando no término do relacionamento.

Sem entrar na discussão sobre importância do ciúme em uma relação, há sempre um ponto de equilíbrio. Trata-se de uma forma de controle e é preciso atentar para ela, pois vemos e ouvimos com muita freqüência histórias de diversos crimes cometidos por um excesso desse tipo de comportamento. Pessoas com baixa auto-estima tendem a valorizar demonstrações ciumentas, pois se sentem amadas e valorizadas, e isso pode criar um grande problema mais tarde. Se o parceiro não trai, será realmente por conta do alcance das demonstrações de ciúmes, ou por que escolheu estar na relação? Nada como recuperar a auto-estima e manter relacionamentos mais saudáveis, afinal, tudo que é “proibido” é...?

Maternidade e a fuga do preconceito

Já falei, em outra publicação, sobre a pressão que as mulheres sofrem, por parte das próprias mulheres, em “não ficarem pra titia”. Uma contingência cultural que desencadeia ansiedade e sentimento de inadequação nas solteironas. Mas não é apenas no sentido de ‘contrair matrimônio’ que se resume o contexto cultural aversivo que as mulheres vivem atualmente. Falo aqui da pressão social para serem mães. O mecanismo de coerção é o mesmo. O sentimento de culpa é um efeito colateral de um comportamento que se desvia do que está estabelecido enquanto “verdade” em uma sociedade. E é esse sentimento que têm experimentado aquelas mulheres que optam por não ter filhos. Analisando as contingências históricas do culto à maternidade, observa-se uma sociedade buscando uma solução pacífica para a instalação de um modelo paternalista de controle. É instituída a idolatria da função materna, expressa inclusive nas artes como literatura, pintura, música, etc. O desejo de ser mãe, então, passa a fazer parte do que é consensualmente aceito (inclusive pela comunidade científica) como desenvolvimento normal da natureza feminina. Nessa época e não raro nos dias atuais, até mesmo a educação dos filhos foi atribuída exclusivamente às mulheres, sob a alegação de que estas possuem habilidades inatas de relacionamento, o que, por sua vez, exime o homem dessa responsabilidade. Não causa espanto, portanto, ler notícias como esta “Mulheres que optam por não ter filhos são alvo de pressão social”. Novamente vemos uma faceta cultural gerando preconceitos e promovendo desconforto em muitas pessoas.  

Crianças e a guerra contra os legumes

Hoje pela manhã, assistindo ao noticiário vi uma reportagem sobre crianças que fazem birra na hora das refeições, principalmente quando se trata de comer legumes e verduras. A apresentadora do telejornal entrevistou ao vivo, se não me falha a memória, uma pediatra do hospital das clínicas em São Paulo, que trouxe algumas informações bastante úteis de como lidar com essa situação e resolvi fazer uma análise comportamental dessas orientações. No início da sua fala, a pediatra diz que após ter consultado o médico da criança, devem-se seguir algumas mudanças em casa, ou seja, descartada qualquer causa orgânica para a recusa em se alimentar, o jeito é aprender a lidar com a birra. Vejamos as orientações e suas equivalentes dentro da análise do comportamento: 

"Ninguém morre de fome com alimento disponível": Muitas mães entram em desespero quando os filhos se recusam a comer. Principalmente quando ele está há alguns dias agindo dessa forma. O importante neste caso é a mãe aprender a controlar a ansiedade e entender que filogenéticamente a criança está programada para se alimentar com uma béla salada de rúcula se sua sobrevivência depender disso. 


"Não dê importância para as birras e não demonstre que aquilo te preocupa": O comportamento de fazer birras possui claramente dupla função, a de se livrar dos legumes e a de disponibilizar as gulozeimas. Quando o adulto não dá importância para a birra, o comportamento dela, nesse caso tende a entrar em Extinção. Chamar a atenção dos pais ou sensibilizá-los é o objetivo da criança. Portanto, ao demonstrar que estão preocupados com a situação, acabam reforçando o comportamento inadequado. 


"Deixe a comida disponível para a criança": Como já dito anteriormente, chegará um momento em que a criança se alimentará com o que estiver disponível (nesse caso, a alimentação adequada), pois, estamos falando de uma Operação Estabelecedora. A privação de alimento, aumenta o Valor Reforçador deste, e enquanto Reforço Primário, por si só, fortalece o comportamento de ingerir legumes e verduras. 


"Não ofereça yogurtes ou outros alimentos alternativos": Ao oferecer alternativas para que a criança se alimente, os pais Reforçam Positivamente o comportamento de fazer birras, pois, se livrar dos legumes e ganhar gulozeimas, é justamente a função do seu comportamento. 


"Dê o exemplo": A Imitação facilita a instalação do comportamento no repertório da criança, portanto, servir de modelo é fundamental.


"Verbalize enquanto come, que a comida está boa": Na medida em que a Operação Estabelecedora dá acesso à criança a um Reforçador Primário, a narrativa dos pais em voz alta de que o alimento está gostoso (na hora do almoço ou jantar), pode servir de Estímulo Discriminativo para a sensação positiva de saciação que a criança terá após alimentar-se. E dessa forma passar a controlar a resposta de comer vegetais. Pode servir também como uma forma de Reforço  Generalizado (social). Basta observar o impacto que essas verbalizações tem sobre o comportamento da criança, se esse comentário parte de um amiguinho da mesma idade. 

A hora do almoço ou jantar, para muitas famílias se torna um caos por conta das birras para se livrar dos vegetais. Mães costumam entrar em desespero quando seu filho não está bem alimentado. A pediatra orienta que talvez nas duas primeiras semanas a criança apresente forte resistencia a essas novas regras. Então, cabe aos pais aprender a lidar com a ansiedade e suas auto regras nesse sentido (por exemplo, "não estou sendo uma boa mãe/pai", "criança não deve ficar com fome nunca", "meu filho vai ter um 'tréco'", etc). Ensinar os filhos a se alimentarem adequadamente é tão importante quanto vê-los de barriga cheia, e se configura numa pratica necessária e que demonstra amor e responsabilidade.  

Persuasão - Alguns estudos

A edição de nº 210 da revista “Mente e Cérebro”, traz uma matéria de Kevin Dutton a respeito do poder da persuasão. O autor reúne alguns estudos científicos que corroboram com a formulação de cinco aspectos principais no que diz respeito à arte de persuadir pessoas, cuja sigla é “SPICE”. Segue resumidamente a descrição de cada aspecto: 

Simplicidade: A idéia central gira em torno da importância da simplicidade da mensagem. Quanto mais simples e curta for a mensagem (em geral composta por três palavras), mais o interlocutor conseguirá prender a atenção do ouvinte, aumentando as chances de que este interprete o que está sendo dito enquanto uma instrução fácil de seguir. 
Perceber o outro: Aqui o autor fala da importância de perceber os interesses do ouvinte, e emitir respostas verbais que estejam de acordo com eles. Além do estudo apresentado que contribui para esta idéia, o autor traz a história do rei Luis XI da França, que por medo de perder seu posto para um vidente que previu corretamente a morte de um membro de sua família, planeja matá-lo. Ao se encontrar com o vidente, o rei o questiona sobre sua capacidade de predizer a própria morte. O adivinho então responde: “Devo chegar ao meu fim apenas três dias antes de Vossa Majestade encontrar o seu”. 
Incongruência: Esse aspecto diz respeito à capacidade surpreender o ouvinte, de modo “quebrar as defesas do cérebro”. A incongruência é um fator que determina, por exemplo, o quanto uma piada se torna engraçada, pelo nível de surpresa que sua conclusão gera. E essa forma de agir pode aumentar a probabilidade de se atingir o objetivo em uma negociação. Instigar o bom humor do ouvinte de forma inesperada ou incongruente pode fazer com que este se depare com algo novo e se torne mais receptivo à mensagem. 
Confiança: O que chama a atenção neste aspecto é a maneira como associamos, por exemplo, o alto custo de um produto ou marca à garantia de melhor qualidade. A confiança previamente estabelecida pode iludir inclusive o paladar de experts em degustação, mesmo se tratando do mesmo produto. Nesse sentido, a confiança é um fator que pode determinar o sucesso ou fracasso na arte de persuadir. 
Empatia: Quesito de importância já conhecida entre profissionais de saúde (ao menos assim o deveria ser), a empatia diz respeito a emitir comportamentos que evidenciem que o interlocutor “sente” o problema do outro. Uma postura calorosa e empática aproxima as pessoas envolvidas em uma ‘negociação’ e aumenta as chances de convencê-las das melhores intenções. Frases como “eu sei o que você está sentindo”, “entendo o que esteja passando”, são exemplo de comportamentos verbais que denotam empatia.  

Enfim, muitas situações do cotidiano demandam habilidades de persuasão para conseguirmos o que desejamos. Uma entrevista de emprego, um desconto na hora de comprar um carro, conquistar um cliente importante, negociar as férias de final de ano com o parceiro amoroso, etc., são alguns exemplos. E todo histórico de sucesso ou fracasso nesse sentido encontra-se refletido na, já conhecida, auto-estima. Ser assertivo aumenta o retorno positivo do ambiente e consequentemente a sensação de bem estar. 

Pequena Análise: Indisciplina e carência afetiva

É comum vermos pais e educadores perplexos diante do comportamento de algumas crianças que, após serem repreendidas por se comportar de maneira inadequada, parecem fazer questão de agir daquela forma novamente. A explicação para este fato provavelmente envolve a análise de um numero considerável de variáveis, mas gostaria de chamar a atenção aqui para “apenas” uma: a privação. Mais especificamente a privação de atenção, carinho, toque, olhar. Classe de comportamentos tidos como “demonstração de afeto”. Quem convive com crianças sabe que o simples contato visual é suficiente para que ela continue agindo de determinada maneira. Convenhamos, para uma criança que (infelizmente) está privada desse tipo de reforço, fazer algazarra pode ser um negócio muito lucrativo. Logicamente, pois, ao ser repreendida, ela é vista, tocada, recebe atenção. É lembrada de que existe...

Paquera e a Equivalência de Estímulos

Já reparou como parece ser mais fácil iniciar, manter e atingir o objetivo em uma paquera quando você e o ‘alvo amoroso’ possuem um (a) amigo (a) em comum? Este fato pode ser explicado pelo conceito de Equivalência de Estímulos, ou seja, o papel de estímulos funcionalmente semelhantes no controle do comportamento. Explico: Imaginemos que Maria compartilha com sua amiga Camila, alguns interesses em comum como preferência musical e valores pessoais, mas acima de tudo convergem no que consideram características comportamentais que tornam um homem atraente ou um ‘bom partido’. Pois bem, em uma bela e ansiada noite de sexta-feira, as duas resolvem sair para dançar e paquerar quando Camila encontra um amigo muito querido (e solteiro), o João. Então, Camila fala para Maria: “Deixa eu te apresentar um grande amigo meu, ‘gente boa pacas’, da minha confiança!”. A apresentação acontece e imediatamente vemos Maria numa conversa acalorada com João, exibindo um sorriso de orelha a orelha e experimentando um sentimento de gratidão por ter uma amiga como Camila. O que não aconteceria (ao menos levaria mais tempo) se alguém desconhecido abordasse Maria. Com ou sem consciência do mecanismo que está por trás do seu interesse, Maria está vivenciando uma situação típica de Equivalência de Estímulos. O cálculo é simples: Maria e Camila são grandes amigas. Tão logo Camila e João sejam grandes amigos, Maria abstrai que o que é reforçador para Camila, o é para João. Em linguagem simples, sem nunca ter conversado com João, Maria lhe atribui características de personalidade ou comportamento com base na sua relação com Camila. “Se Camila gosta, eu também gosto”. Até aqui tudo bem, pois até por uma questão de economia, justifica-se a busca por referências positivas das pessoas que podem vir a fazer parte do nosso cotidiano. O problema reside no caráter contextual do comportamento humano. Camila mantém uma relação com João de amizade, o que não autoriza Maria a prever que João possui aspiração para um gentlmen. João pode apresentar diversas habilidades enquanto amigo, porém apresentar um repertório pobre, quando a contingência é um relacionamento sério. Para uma boa e sucinta análise do papel do contexto discutido aqui,  acesse Nunca conhecemos de fato alguém de Alessandro Vieira, Analista do Comportamento. Discriminar (termo técnico) sempre!

O medo de "ficar pra titia"

O comediante Rafinha Bastos em um de seus shows de stand up comedy, fez uma piada a respeito do casamento que me fez refletir a respeito da veracidade daquela afirmação. Segue o que foi dito: “Casamento é um momento muito mais feliz para a mulher do que para o homem. Não é à toa, que na cerimônia ela usa branco e ele preto”. 
A análise que gostaria de fazer diz respeito ao significado cultural que o casamento tem para uma parcela significativa das mulheres. Se pensarmos nas contingências nas quais as mulheres viviam há várias décadas, observaremos que “ficar pra titia” era um motivo e tanto de preocupação, pois praticamente não havia espaço no mercado de trabalho para que estas pudessem construir uma vida autônoma. Portanto, casar-se fazia parte do currículo daquelas mulheres que não queriam ser vistas como “desviantes” perante a sociedade. Na medida em que a mulher foi conquistando seu espaço, com acesso a informação, aumento da participação política e inserção em praticamente todos os segmentos do mercado, o casamento passou a ser uma escolha pautada em características comportamentais e não mais financeiras ou de dotes. O que acontece é que as mulheres mudaram, a sociedade mudou, mas culturalmente o medo de “ficar pra titia” ainda hoje se mantém. Frases como “você precisa arranjar um marido”, “isso é falta de homem”, “suas amigas estão casando e você está aí, solteira”, etc., demonstram que as mulheres ainda reproduzem um discurso que categoriza a si próprias como adequadas ou inadequadas, de acordo com o “status conjugal”. Como não querem “ficar pra titia” e receber esse tipo de pressão social, muitas mulheres acabam por envolver-se matrimonialmente com mais facilidade do que homens e ter uma predileção maior por relacionamentos dessa natureza. O problema desse padrão de comportamento é que novamente a escolha do parceiro não é feita de acordo com características de personalidade que garantiriam assertividade e longevidade da relação, mas pelo que chamamos de reforço negativo (ganho pela evitação de algo aversivo). Não apresento aqui variáveis de caráter evolutivo que justificariam essa predileção (por exemplo, o ganho evolutivo quando do nascimento de um filho), pois ela se apresenta em diversas faixas etárias e a meu ver a discussão é controversa. Então, vale ficarmos atentos aos mecanismos culturais que podem motivar o investimento em relações disfuncionais e fundamentalmente aprendermos a diferenciar prazer de alívio.  

Pequena Análise: Traição e o medo de estar só

A traição em um namoro com freqüência pode ser fruto da seguinte contingência: Privação do que realmente é reforçador para a pessoa em uma relação, porém, a aversividade em estar só, compete com os reforçadores disponíveis. Tendo, a classe de comportamentos “terminar um namoro”, alto custo de resposta. Em linguagem simples, a pessoa tem suas expectativas frustradas em relação ao que gostaria de experimentar em um relacionamento, mas a perspectiva de ficar sozinho(a) é mais “assustadora”. O resultado é a tentativa de conciliar as duas coisas. Buscar a gratificação desejada (por exemplo, mais atenção, carinho, diálogo, sexo, etc.) com outras pessoas ou relações, sem necessariamente estar solteiro(a). Esta análise não leva em consideração fatores culturais (terceira contingência), que modulam a adequação do comportamento de “trair” entre os gêneros e absolutamente, contingências coercitivas que dificultam a tomada de decisão.

Pequena Análise: Férias e o divórcio

Lembro-me de uma reportagem a respeito do alto índice de divórcios que ocorrem após o período de férias do ano, e resolvi postar uma breve análise: Casais jovens que vivem em grandes cidades passam maior parte do dia trabalhando e a noite muitas vezes estão envolvidos em atividades acadêmicas ou de formação. Aos finais de semana os grandes centros oferecem diversas opções de lazer e entretenimento. Quando há filhos, a atenção do casal em geral está voltada para o pequenino e este passa o dia todo na 'escolinha'. Como se pode notar há relativamente pouca “troca” propriamente dita entre o casal. O que acontece quando resolvem tirar férias em uma praia tranquila? A resposta é convivência. Sem muitas possibilidades de emitir respostas de esquiva diante de comportamentos indesejáveis, os cônjuges passam a observar de maneira direta, a forma como cada um lida, por exemplo, com a birra dos filhos, situações de stress, divisão de tarefas, aquela infecção intestinal por um camarão estragado que deixa o outro acamado e necessitando de atenção especial, flexibilidade, comodidade, etc. Em suma, sair de férias pode ser um momento determinante na história da sua relação conjugal.

Contingencias aversivas da sexualidade feminina


Há alguns dias atrás estava conversando com uma amiga e ela relatou uma história que me chamou a atenção. Ela estava trabalhando num dia de calor intenso usando saia (apropriada para o ambiente de trabalho). A sua mesa era completamente fechada na frente, de forma que ninguém poderia ver o que se passava embaixo dela. Ela contou que ao abrir as pernas no intuito de se “ventilar” experimentou uma sensação de que estava fazendo algo errado, algo impróprio. Por mais que tentasse, não conseguia permanecer durante muito tempo com as pernas afastadas. Era como se uma voz lhe dissesse: “fecha as pernas, menina”. Observando esse relato, já se pode ter uma idéia do modelo de educação sexual a qual foi submetida. Imaginemos uma menina que desde tenra idade escuta frases como: “você não pode mostrar suas ‘vergonhas’”; “meninas de saia devem fechar as pernas”; “não coloque a mão lá porque é feio”; etc. Todas essas frases traduzem um modelo de educação sexual machista e um tabu em relação à sexualidade feminina, que acabam por criar auto-regras (é errado abrir as pernas usando saia) insensíveis às contingências (pois ninguém poderia vê-la com as pernas abertas). E como se pode notar, depois de adulta ainda carrega consigo reações emocionais aversivas diante desse comportamento.
Uma última análise que gostaria de fazer, que a meu ver está relacionada ao tema, é a necessidade que algumas mulheres apresentam de conversar após as relações sexuais. Salvaguardando os aspectos neurofisiológicos que poderiam predispor a esse comportamento, imaginemos novamente toda ampla gama de regras, às quais boa parte das mulheres foi submetida. Regras como: “sexo deve ser com alguém que você ama”; “se você transar vai ser vista com olhos diferentes”; “se você transar no primeiro encontro será vista como promiscua”; “homens só querem sexo”; e uma infinidade de outras manifestações por parte dos cuidadores que deixam um recado implícito: Não faça sexo. Isso acaba por instalar no repertório da mulher um sentimento de culpa quando agem de forma “desviante” a essas regras. Assim, conversar após a relação sexual pode adquirir a função de receber uma forma de validação social do comportamento “desviante”, por parte do parceiro. Validação esta que se traduz em esperar palavras de carinho, verbalizações que buscam garantias de estabilidade do relacionamento, afagos, elogios, etc. Não raro, ouvimos relatos de mulheres que se sentem rejeitadas, objetos sexuais ou até mesmo tratadas como promíscuas, quando seu parceiro vira para o lado e dorme. Alguns autores da área afirmam que ainda levarão três ou quatro gerações para que a sexualidade feminina seja culturalmente trabalhada de forma aproximada à masculina. Na prática clínica, são freqüentes os casos de mulheres com dificuldades em manter relações sexuais satisfatórias por conta do modelo de educação sexual que receberam. Assim como a sensação de inadequação dessa amiga, que citei no início do texto, algumas mulheres carregam consigo um padrão de comportamento sexual completamente disfuncional, por não questionarem o mecanismo preconceituoso e repressor que está em operação no seu ambiente. Mulheres sexualmente esclarecidas, homens (ou mulheres) sexualmente satisfeitos. Educação sexual urgentemente!

Consumismo e a ilusão de uma vida plena.

O termo 'Discriminar' na linguagem técnica refere-se basicamente a nossa capacidade de 'tomar consciência' de algo, ou identificar variáveis ambientais que antes não percebíamos estar em operação. Diz-se que um indivíduo discriminou as variáveis que instalaram seu medo de altura (até então inexplicável), quando, ao explorar sua história de vida, descobre um evento traumático na infância. A nossa capacidade de discriminar, é o que nos permite, por exemplo, avaliar uma situação como perigosa ou não. De acordo com essa breve definição, posto aqui um vídeo a respeito do consumismo e suas conseqüências sociais e ambientais. O vídeo é bastante didático e divertido. Uma ótima fonte de informações para espantar (causar espanto) e despertar a consciência para as variáveis que estão manipulando nossos hábitos consumistas e até mesmo nossa percepção do que é ser feliz e “estar adequado”. Aproveitem!  




Consequências em Longo Prazo

Quem se lembra do personagem de Russel Crowe, Maximus Decimus, no filme Gladiador, deve recordar também da célebre frase “what we do in life echoes in eternity”, cuja tradução é “o que fazemos na vida, ecoa na eternidade”. Esta frase lembrou-me de um conceito que chamamos de Comportamento Operante. Comportamento Operante é aquele que, como o próprio nome diz, opera sobre o ambiente e nele provoca modificações, conseqüências. Existe uma classe de comportamentos (chamados Respondentes) que via de regra não opera no ambiente, ou não gera conseqüências. Mas tratarei desse tema em outra postagem. É comum ouvirmos que ‘fulano’ é inconseqüente, ou não “mede” as conseqüências dos seus atos. O julgamento que as pessoas fazem desses indivíduos tidos como “inconseqüentes”, muitas vezes carrega a idéia de que ‘fulano’ o faz com a intenção de prejudicar a si mesmo ou aos outros. Não há dúvidas de que algumas pessoas provocam danos aos outros intencionalmente, mas generalizar essa regra é extremo. Freqüentemente no nosso cotidiano encontramos pessoas queridas e tidas como de ‘bom caráter’, mas que em determinadas situações parecem perder completamente a capacidade de análise das conseqüências dos seus atos. E perdem mesmo. Estamos falando aqui de pessoas que possuem dificuldade em Discriminar possíveis eventos futuros que ocorrerão em resposta a seu comportamento. Durante a infância somos treinados (ou não) a perceber que nossas ações possuem uma contrapartida. “Não coloque o dedo na tomada, pois levará um choque”, é um exemplo de discriminação de conseqüências, mas nesse exemplo, nota-se que a conseqüência é imediata (se tocar os fios, o choque é sentido imediatamente). O problema começa quando as conseqüências estão temporalmente distantes do comportamento que as provocou. O uso cartão de crédito é um exemplo de conseqüência postergada (ela inevitavelmente ocorrerá, quando chegar a fatura). Quem já contraiu muitas dívidas pelo uso desmedido do cartão de crédito, provavelmente já experimentou a sensação de, na hora da compra, amenizar ou não conseguir discriminar as conseqüências financeiras daquela aquisição. E, convenhamos, esta é uma situação muito corriqueira. A análise então é: Quanto mais distante estiver a conseqüência do comportamento, maior a tendência a amenizá-la, subestimá-la ou mesmo não tomar consciência dela. Algumas pessoas discriminam melhor as conseqüências dos seus atos e outras nem tanto e isso pode se tratar meramente de um treino adequado. A capacidade de “prever” o que ocorrerá futuramente faz parte do que chamamos de Comportamento Assertivo. Uma parcela considerável de nossas vidas envolve a discriminação de conseqüências em longo prazo. Para citar alguns exemplos: a escolha de um curso na faculdade (ou mesmo se fará uma faculdade), aderir ou não a uma dieta, permanecer ou não em um relacionamento, investir dinheiro em ‘x’ ou ‘y’, mudança de emprego, fazer sexo com ou sem proteção, e muitas outras situações. Como se pode notar, decisões como estas podem mudar o rumo de uma vida para sempre, tanto para melhor quanto para pior dependendo das variáveis que cada um consegue manipular sobre as conseqüências futuras. Tendo consciência desse processo, torna-se menos credível que pessoas justifiquem seu fracasso em determinados contextos (na maioria deles, eu diria), como obra do acaso ou destino. Afinal, “quem planta, colhe”. Podemos agir da maneira que nos convenha, mas de uma coisa você já sabe: a conseqüência, cedo ou tarde, virá. “O que fazemos na vida, ecoa na eternidade”!

Filhos - Regras e Limites


Educar filhos não é tarefa fácil. É preciso impor regras e limites. Mas como fazer isso sem prejudicar a auto-estima deles e de uma forma saudável? Crianças são muito “maleáveis” no que tange o aprendizado de novas condutas, novos padrões de comportamento, mas é necessário o manejo adequado para não gerar mais problemas do que soluções. Todo comportamento humano possui uma função. Imaginemos uma criança que sente falta da atenção dos pais. Mesmo na forma de gritos e palmadas, ao fazer algazarra ela ganha a atenção de que necessita. Diz-se então que o comportamento da criança adquiriu a função de chamar a atenção dos pais. É muito comum vermos crianças fazendo escândalos em supermercados, shoppings, lojas de brinquedos principalmente. Os pais buscando passar uma imagem de bons tutores acabam satisfazendo as vontades dos filhos para acabar com a gritaria. E, tais quais pequenos executivos, as crianças aprendem a “negociar” com os pais o seu brinquedo no shopping. Como o assunto é complexo e vasto, busquei reunir de forma sucinta, alguns direcionamentos no trato com a criançada:

1 – Colocar regras do tipo ‘Se’ – ‘Então’. Deixar claro para a criança qual será a conseqüência do comportamento dela se fizer algo errado. Exemplo: “Se não fizer a lição de casa, então ficará sem assistir televisão.”

2 – As regras devem ser consistentes. Se um dia há punição por não fazer a lição de casa e no outro não, a criança aprende que nem sempre será punida e passará a manipular essa falha. Se o castigo é ficar dois dias sem ver televisão, os pais devem cumprir a regra, pois a criança já sabia de antemão qual era a punição. Ao longo do tempo ela vai percebendo que seu comportamento gera conseqüências e vai se tornando mais responsável.

3 – Deve haver consenso sobre as regras, por parte dos cuidadores. Não será eficaz, que a mãe estabeleça uma punição e o pai não à faça cumprir, pois este estará invalidando a autoridade da mãe, dando margem para que o comportamento inadequado se mantenha.

4 – Estabelecer regras razoáveis. É praticamente impossível impor e cumprir castigos do tipo “você ficará duas semanas sem sair de casa para brincar”. Duas semanas sem sair de casa para uma criança é como meses na prisão para os adultos. Estabeleça regras que você vai conseguir cumprir e que leve em consideração o bem estar do filho(a).

5 – Nunca se pune a criança, mas sim o comportamento dela. A criança vai formando uma opinião de si mesma e construindo sua personalidade de acordo com o que ouve a seu respeito, principalmente dos pais. Dizer “você é um desastrado”, “você é um preguiçoso”, etc., faz com que ela passe a se ver dessa forma. Aponte qual comportamento é inadequado e cumpra as regras. Exemplo: Ao invés de dizer “Você é um menino mal, vai ficar de castigo por bater no seu irmão”, pode-se dizer: “Você é um ótimo filho, mas bateu no seu irmão e isso não está certo, agora ele está triste, então vai ficar de castigo”.

4 – A punição apenas não basta, é preciso gratificar a criança por seu bom comportamento. Nenhuma criança (ou adulto) muda de conduta se não ganha nada com aquilo. É preciso estabelecer recompensas para o bom comportamento. A punição por si só apenas funcionará enquanto o agente punidor estiver próximo. Recompensá-la por bom comportamento é necessário para que haja um condicionamento de sentimentos de bem estar por fazer o que é certo. Aos poucos não será necessário presenteá-la. Ela se comportará bem naturalmente.

5 – O castigo não invalida o carinho. Se a criança fez algo errado e está de castigo não quer dizer que ela deva estar privada da atenção e do carinho dos pais. Muitos pais negam aos filhos, pedidos para conversar, para se aproximar, quando estão de castigo. Ou seja, além de ficar dias sem ver seu desenho favorito, a criança ainda não receberá atenção e carinho das pessoas que são seus pontos de referência. É pesado, não?! Talvez, enquanto esteja de castigo, ela queira comunicar algo importante ou que a esteja deixando assustada. Dessa forma ela deve sentir que embora tenha se comportado mal, é amada e acolhida. Não se pune uma criança com a retirada do afeto!

6 – A mudança no comportamento demanda tempo! Quanto mais consistentemente forem manejados os esquemas de punição e recompensa, mais rápida será a mudança no comportamento da criança. Mas esperar que a mudança ocorra da “noite para o dia”, é tão ideal quanto a idéia de que seu filho não tem “solução”.

Ficam algumas dicas para o manejo assertivo do comportamento das crianças. Como dito no início, as crianças são bastante flexíveis no aprendizado de novas condutas, porém é necessário que seus cuidadores assumam a sua parcela de responsabilidade e saiam da zona de conforto que se expressa geralmente em frases do tipo: “Meu filho tem um problema”. Enquanto ele tem um “problema”, está explicada a falta de disciplina e os pais nada podem fazer para mudar isso. Cuidado. As crianças são o reflexo (menos dissimulado possível) do ambiente em que vivem. Se a situação está saindo do controle, nada como buscar um bom terapeuta!

Condicionamento Pavloviano

O experimento clássico de Ivan Pavlov foi um estudo no qual o cientista conseguiu fazer um cão salivar com o som de uma sineta. O que ele fez foi basicamente emparelhar o toque de uma sineta (Estímulo Neutro para a resposta de salivar) à apresentação de comida (Estímulo Incondicionado para a resposta de salivar). Após certo número de emparelhamentos, ou seja, após apresentar o alimento ao cão e tocar a sineta, o cão "aprendeu" que o som era indício de comida chegando e salivava sem ter alimento por perto! O comercial abaixo demonstra, de forma bem humorada o condicionamento explicado por Pavlov. Mas, logicamente, a intenção é condicionar VOCÊ a salivar! Vale a pena conferir!


Namoro: Início e limites!


O ponto que gostaria de frisar aqui é o início do relacionamento. Quem já experimentou o frio na barriga de estar gostando de alguém, sabe que nessa fase em geral há uma cordialidade incrível: escolher palavras, vestir-se bem, isolar-se dos amigos, concordar com a opinião do outro em muitos aspectos, etc. Queremos impressionar o outro e fazer com que este nos admire o quanto o admiramos. Até aqui tudo bem. O problema começa quando dizemos coisas e agimos de forma muito diversa do que realmente somos. Novamente, o raciocínio é simples. Na medida em que o tempo passa, a paixão vai dando lugar ao amor e o nosso ‘modus operandis’ aflorando novamente. Em termos comportamentais vamos ficando Saciados e o Valor Reforçador de atividades como sair sozinho, conhecer pessoas diferentes, ir à lugares diferentes, etc., vai aumentando. Mas como retomar algumas atividades ou maneirismos sem que o outro ache estranho? Como fazê-lo sem que outro pense que não está sendo suficiente ou que você o está traindo? Resposta: Uma ‘D. R.’ daquelas! Tudo poderia ter sido resolvido, se no início do relacionamento ocorresse uma descrição como segue: “Eu gosto muito de acampar com x freqüência, gosto de sair sozinho(a) esporadicamente com meus amigos, gosto de baile funk (o autor não gosta) e adoro ir ao cinema sozinho(a) uma vez por semana. Naturalmente estamos passando mais tempo juntos, pois é algo novo e muito bom pra nós dois. Mas, cedo ou tarde, retomarei as atividades que eu gosto e isso não tem nada a ver com você. Tem haver com as minhas necessidades pessoais e estando bem comigo, naturalmente sentirei mais prazer em estar com você!". Problema resolvido, não é?! Não haverá tanta insegurança se acaso você decida retomar algumas atividades que deixou de lado enquanto estava apaixonado. Mas se você já está experimentando certa ansiedade em retomar suas atividades favoritas, o ideal é conversar com o companheiro sobre esse mecanismo natural nos relacionamentos e tentar fazer uma transição mais tranqüila. Os seres humanos estão em constante mudança e isso é esperado que aconteça. Conseguir adaptar-se à essas mudanças faz parte de um relacionamento a dois saudável. Em suma, colocar nossos limites é fundamental, principalmente no início do relacionamento. Em geral, nos vemos impulsionados à impressionar o outro, procurando passar uma imagem de quem não somos (como se não fosse possível encontrar alguém que goste do nosso “jeito”...). Vale a pena “pisar no freio” um pouco e evitar desentendimentos futuros!

Namoro: Auto-Estima antes de tudo!


Bom, falar de relacionamento humano nunca é fácil, não é? Principalmente quando o assunto é namoro. Mas para nós terapeutas ficam claras algumas “diretrizes” que podem ser aplicadas na maior parte dos relacionamentos amorosos, para evitar desilusões e sofrimentos desnecessários. Então vamos lá! O ponto que gostaria de discutir aqui é a auto-estima enquanto um fator determinante de uma relação saudável. Pessoas com baixa auto-estima tendem a pisar em algumas pedras quando o assunto é namoro. O raciocínio é simples. Quando estamos devendo um pouco de atenção e carinho para nós mesmos, esperamos que o outro o faça (e nos contentamos com menos do que merecemos e gostaríamos). Aí começa a encrenca, pois, quando colocamos o nosso bem estar na mão de outra pessoa o resultado quase sempre, é decepção. Nossa felicidade e bem estar fica sob controle de outra pessoa. Transformamos-nos em uma marionete, indo do êxtase à depressão conforme o ritmo ditado pelas marés de humor do companheiro. E não é isso que queremos. Queremos segurança! E essa sensação, felizmente ou infelizmente, só encontramos em nós. Preste atenção em necessidades urgentes de estar se relacionando com alguém. Pode ser indício de que sua auto-estima precisa de uma “manutenção”. Vejamos, se ficar sozinho é algo extremamente aversivo, falando em termos comportamentais, o valor reforçador de uma relação sobe muito. Quando se encontra alguém, há uma probabilidade grande de que o medo de perdê-lo supere sua espontaneidade no relacionamento. Para não perder a pessoa “amada”, acaba-se por fazer concessões desagradáveis, enquadrar-se em regras que não levam em consideração suas vontades e valores, etc. Fica uma bagunça só, e em geral, essa situação ‘acaba em término’ (risos). Aqui você viu que a máxima “estar bem consigo mesmo, para depois ficar bem com os outros”, faz todo sentido. Em geral quando terminamos um relacionamento ficamos fragilizados, tristes, melancólicos com a perda. Vivemos um luto. O problema é que neste momento, novamente o valor reforçador de estar com alguém sobe muito, e o ciclo se repete. Por isso, fica a dica: Procure ficar bem consigo mesmo, antes de entrar em um relacionamento. Procure conhecer suas vontades, seus valores, o que lhe falta para ter uma vida tranqüila sem depositar seu bem estar nas mãos de outra pessoa, passe um tempo sozinho. Se você sente-se muito ansioso, ou está colecionando relacionamentos difíceis e com alto custo emocional, vale a pena buscar um bom terapeuta e, a partir daí, experimentar os prazeres de uma relação harmoniosa, construtiva, na qual seus limites são levados em consideração. E cuidado! Utilizando das palavras da psicóloga Maria Rafart: “Quando se está acompanhado só porque precisa de alguém, reduz-se o companheiro a um mero prestador de serviços.”

Terremoto no Haiti



Basicamente os seres humanos vivem, utilizando a linguagem técnica, sob três contingências: filogenética (inerente à espécie), ontogenética (história de vida de cada pessoa) e cultural. Vendo as vítimas do terremoto no Haiti brigando (literalmente) entre si para conseguir um saco de arroz, fica clara a força do caráter filogenético da espécie, ou seja, se faltar o básico para a sobrevivência como o alimento, o caráter ontogenético e cultural fica seriamente comprometido. Valores pessoais e coletivos como honestidade, respeito ao próximo, não tomar a frente de outra pessoa numa fila, etc., são deixados de lado em nome da sobrevivência. Paradoxalmente, no momento que mais demanda trabalho em equipe e união, parece haver uma total desarmonia e competição. É comum vermos vários movimentos organizados para o auxílio às vítimas, enviando alimentos, vestuários, profissionais de saúde, etc. Não levando em consideração algum “possível” interesse político, a ajuda às pessoas desabrigadas ocorre pela capacidade do ser humano de colocar-se no lugar do outro, ou seja, a empatia. Um gesto nobre, porém, possível apenas quando não estamos vivendo sob as mesmas contingencias, pois, se as estivéssemos vivendo, a probabilidade de estarmos engalfinhados em uma briga sangrenta para conseguir alimento, aumenta e muito. Surge então o caráter ambíguo do ser humano, controlado por fatores externos a ele. Perder o lar, parentes e amigos é perder parte de si, da própria identidade. Em casos como estes há um fenômeno de psicopatologização em massa. Pessoas tendem a sofrer dos mesmos problemas psíquicos, pois vivem sob às mesmas contingências. No caso de desastres naturais ainda há um agravante: Não há um culpado. Muitas pessoas mortas por causa de um ataque de uma facção gera revolta e dor contra o agressor e isso pode unir as pessoas. No caso do terremoto, como não há um agressor específico, a revolta passa a ser contra o Estado. Em Santa Catarina era comum ver pessoas saqueando lojas, depois dos alagamentos. No Haiti, se um supermercado intacto fosse descoberto pela população, teria sido punido dessa forma não apenas pela necessidade básica de matar a fome, mas pela revolta contra o Estado que está ali para garantir o básico para a sobrevivência de seus “filhos”. E tudo isso, naturalmente, sem um pingo de culpa. O terremoto no Haiti é uma situação extremamente dolorosa e digna de atenção de todos. Ver seres humanos praticando atos primitivos para sobreviver é sinal de que, com toda certeza, essa população necessita muito da nossa ajuda.

Raiva: Uma escolha


Você sabia que a raiva é uma escolha e não uma resposta automática do seu organismo? Sim. Quando sofremos alguma injúria, a primeira reação é uma experiência de STRESS (desconforto, ansiedade, taquicardia, medo, etc.). É o seu organismo apontando que algo está errado (de acordo com sua história de vida). Comece a prestar atenção nos PENSAMENTOS que seguem a essa reação de stress. "Fulano não deveria ter feito isso", "Essa avaliação não é justa, eu sempre faço o meu melhor", "Por que fulana nunca é punida?", "Tudo recai sobre mim", etc. Preste atenção também no filme que você ensaia mentalmente no qual pune a pessoa por não ter agido de acordo com suas expectativas. Pessoas que tem dificuldade em dizer 'não' aos outros, freqüentemente experienciam uma resposta de raiva. Logicamente, pois, como não conseguem estabelecer seus limites no momento apropriado, o fazem em pensamento e lá elas tem toda a razão. E esses pensamentos acabam por incendiar e cobrir de razões a pessoa irada. É difícil, dolorido e trabalhoso mudar os pensamentos que acabam por lhe deixar com raiva, pois são irresistíveis. Mas se você já arcou com os custos interpessoais de reagir com raiva em determinada situação, sabe que raramente ela te trouxe benefícios. Em curto prazo, quando estamos com raiva, conseguimos colocar limites nos outros, fazer com que hajam da maneira como esperamos. Mas como eles agiram daquela forma não por escolha, mas pela coerção, a longo prazo, eles tenderão (naturalmente) a evitar o contato conosco. Basta observarmos aquelas pessoas que freqüentemente ficam enraivecidas e saem distribuindo pancadas para todos os lados. Elas parecem ser inflexíveis e provocam em nós uma reação de afastamento. Pra quem sofre com problemas desse tipo há inúmeras formas de conter a escalada da raiva e ser mais assertivo e leve no dia a dia. Há um livro muito bom, baseado em pesquisas científicas, intitulado "Quando a raiva dói" dos autores Matthew McKay, Peter D. Rogers e Judith McKay. Nele os autores trazem, em linguagem simples, técnicas que ajudam a mudar os pensamentos que disparam a raiva, substituindo-os por uma forma assertiva de resolução de conflitos e sem a sensação de que ficou algo não dito, não extravasado ou acumulado. Concluindo então, a raiva é uma experiência cognitiva (comportamento), iniciada, mantida e intensificada por essa experiência. O livro é um ótimo auxílio no tratamento da raiva, mas se ela está prejudicando de forma significativa seus relacionamentos, o ideal é procurar um bom terapeuta (se necessário, com uso de medicamentos bem prescritos) e tornar o processo muito mais fácil. Fica a dica!