O medo de "ficar pra titia"

O comediante Rafinha Bastos em um de seus shows de stand up comedy, fez uma piada a respeito do casamento que me fez refletir a respeito da veracidade daquela afirmação. Segue o que foi dito: “Casamento é um momento muito mais feliz para a mulher do que para o homem. Não é à toa, que na cerimônia ela usa branco e ele preto”. 
A análise que gostaria de fazer diz respeito ao significado cultural que o casamento tem para uma parcela significativa das mulheres. Se pensarmos nas contingências nas quais as mulheres viviam há várias décadas, observaremos que “ficar pra titia” era um motivo e tanto de preocupação, pois praticamente não havia espaço no mercado de trabalho para que estas pudessem construir uma vida autônoma. Portanto, casar-se fazia parte do currículo daquelas mulheres que não queriam ser vistas como “desviantes” perante a sociedade. Na medida em que a mulher foi conquistando seu espaço, com acesso a informação, aumento da participação política e inserção em praticamente todos os segmentos do mercado, o casamento passou a ser uma escolha pautada em características comportamentais e não mais financeiras ou de dotes. O que acontece é que as mulheres mudaram, a sociedade mudou, mas culturalmente o medo de “ficar pra titia” ainda hoje se mantém. Frases como “você precisa arranjar um marido”, “isso é falta de homem”, “suas amigas estão casando e você está aí, solteira”, etc., demonstram que as mulheres ainda reproduzem um discurso que categoriza a si próprias como adequadas ou inadequadas, de acordo com o “status conjugal”. Como não querem “ficar pra titia” e receber esse tipo de pressão social, muitas mulheres acabam por envolver-se matrimonialmente com mais facilidade do que homens e ter uma predileção maior por relacionamentos dessa natureza. O problema desse padrão de comportamento é que novamente a escolha do parceiro não é feita de acordo com características de personalidade que garantiriam assertividade e longevidade da relação, mas pelo que chamamos de reforço negativo (ganho pela evitação de algo aversivo). Não apresento aqui variáveis de caráter evolutivo que justificariam essa predileção (por exemplo, o ganho evolutivo quando do nascimento de um filho), pois ela se apresenta em diversas faixas etárias e a meu ver a discussão é controversa. Então, vale ficarmos atentos aos mecanismos culturais que podem motivar o investimento em relações disfuncionais e fundamentalmente aprendermos a diferenciar prazer de alívio.  

Um comentário:

Anônimo disse...

Adorei a sua analise comportamental, a mulher adquiriu independência no decorrer dos anos, mas ainda são tantos contextos coercitivos.