Crianças e a guerra contra os legumes

Hoje pela manhã, assistindo ao noticiário vi uma reportagem sobre crianças que fazem birra na hora das refeições, principalmente quando se trata de comer legumes e verduras. A apresentadora do telejornal entrevistou ao vivo, se não me falha a memória, uma pediatra do hospital das clínicas em São Paulo, que trouxe algumas informações bastante úteis de como lidar com essa situação e resolvi fazer uma análise comportamental dessas orientações. No início da sua fala, a pediatra diz que após ter consultado o médico da criança, devem-se seguir algumas mudanças em casa, ou seja, descartada qualquer causa orgânica para a recusa em se alimentar, o jeito é aprender a lidar com a birra. Vejamos as orientações e suas equivalentes dentro da análise do comportamento: 

"Ninguém morre de fome com alimento disponível": Muitas mães entram em desespero quando os filhos se recusam a comer. Principalmente quando ele está há alguns dias agindo dessa forma. O importante neste caso é a mãe aprender a controlar a ansiedade e entender que filogenéticamente a criança está programada para se alimentar com uma béla salada de rúcula se sua sobrevivência depender disso. 


"Não dê importância para as birras e não demonstre que aquilo te preocupa": O comportamento de fazer birras possui claramente dupla função, a de se livrar dos legumes e a de disponibilizar as gulozeimas. Quando o adulto não dá importância para a birra, o comportamento dela, nesse caso tende a entrar em Extinção. Chamar a atenção dos pais ou sensibilizá-los é o objetivo da criança. Portanto, ao demonstrar que estão preocupados com a situação, acabam reforçando o comportamento inadequado. 


"Deixe a comida disponível para a criança": Como já dito anteriormente, chegará um momento em que a criança se alimentará com o que estiver disponível (nesse caso, a alimentação adequada), pois, estamos falando de uma Operação Estabelecedora. A privação de alimento, aumenta o Valor Reforçador deste, e enquanto Reforço Primário, por si só, fortalece o comportamento de ingerir legumes e verduras. 


"Não ofereça yogurtes ou outros alimentos alternativos": Ao oferecer alternativas para que a criança se alimente, os pais Reforçam Positivamente o comportamento de fazer birras, pois, se livrar dos legumes e ganhar gulozeimas, é justamente a função do seu comportamento. 


"Dê o exemplo": A Imitação facilita a instalação do comportamento no repertório da criança, portanto, servir de modelo é fundamental.


"Verbalize enquanto come, que a comida está boa": Na medida em que a Operação Estabelecedora dá acesso à criança a um Reforçador Primário, a narrativa dos pais em voz alta de que o alimento está gostoso (na hora do almoço ou jantar), pode servir de Estímulo Discriminativo para a sensação positiva de saciação que a criança terá após alimentar-se. E dessa forma passar a controlar a resposta de comer vegetais. Pode servir também como uma forma de Reforço  Generalizado (social). Basta observar o impacto que essas verbalizações tem sobre o comportamento da criança, se esse comentário parte de um amiguinho da mesma idade. 

A hora do almoço ou jantar, para muitas famílias se torna um caos por conta das birras para se livrar dos vegetais. Mães costumam entrar em desespero quando seu filho não está bem alimentado. A pediatra orienta que talvez nas duas primeiras semanas a criança apresente forte resistencia a essas novas regras. Então, cabe aos pais aprender a lidar com a ansiedade e suas auto regras nesse sentido (por exemplo, "não estou sendo uma boa mãe/pai", "criança não deve ficar com fome nunca", "meu filho vai ter um 'tréco'", etc). Ensinar os filhos a se alimentarem adequadamente é tão importante quanto vê-los de barriga cheia, e se configura numa pratica necessária e que demonstra amor e responsabilidade.  

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