Maternidade e a fuga do preconceito

Já falei, em outra publicação, sobre a pressão que as mulheres sofrem, por parte das próprias mulheres, em “não ficarem pra titia”. Uma contingência cultural que desencadeia ansiedade e sentimento de inadequação nas solteironas. Mas não é apenas no sentido de ‘contrair matrimônio’ que se resume o contexto cultural aversivo que as mulheres vivem atualmente. Falo aqui da pressão social para serem mães. O mecanismo de coerção é o mesmo. O sentimento de culpa é um efeito colateral de um comportamento que se desvia do que está estabelecido enquanto “verdade” em uma sociedade. E é esse sentimento que têm experimentado aquelas mulheres que optam por não ter filhos. Analisando as contingências históricas do culto à maternidade, observa-se uma sociedade buscando uma solução pacífica para a instalação de um modelo paternalista de controle. É instituída a idolatria da função materna, expressa inclusive nas artes como literatura, pintura, música, etc. O desejo de ser mãe, então, passa a fazer parte do que é consensualmente aceito (inclusive pela comunidade científica) como desenvolvimento normal da natureza feminina. Nessa época e não raro nos dias atuais, até mesmo a educação dos filhos foi atribuída exclusivamente às mulheres, sob a alegação de que estas possuem habilidades inatas de relacionamento, o que, por sua vez, exime o homem dessa responsabilidade. Não causa espanto, portanto, ler notícias como esta “Mulheres que optam por não ter filhos são alvo de pressão social”. Novamente vemos uma faceta cultural gerando preconceitos e promovendo desconforto em muitas pessoas.